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17 de maio de 2012

Avieiros de Azinhaga

Voltamos a publicar o documento Avieiros de Azinhaga, agora atualizado com novas informações.

Nómadas do Rio, como os ciganos em terra, tinham vindo da Praia da Vieira e faziam vida à parte: chamavam-lhes avieiros. Nunca ouvira falar de semelhante gente.
Alves Redol, Avieiros, 1967

Tributo aos Avieiros de Azinhaga 

"Mais do que uma realidade que existiu, interessa hoje preitear quem e o que dele resta: os descendentes dos avieiros, que já trocaram as palafitas por casas e para quem a agricultura e outros meios de vida, se substituíram ao Almonda e ao Tejo, que lhes foram única fonte de sustente. Mas, sobretudo, ao Município da Golegã interessa homenagear os seus bisavós, avós e país, que subiram o rio na procura da subsistência que o mar da Vieira de Leira, revolto e pouco generoso no inverno, insistia em lhes negar, levando-os assim a substituir a arte xávega da sardinha pela arte varina do sável.
Os Fernandes (Lobo), os Narciso e os Petinga (Jaqueta), humildes, trabalhadores e discretos, migraram para a Azinhaga, na primeira metade do séc. XX, formando uma comunidade de caraterísticas muito próprias, expressão de uma cultura e de uma tradição, sedimentadas ao longo de gerações, que sobreviveu na borda d´água ribatejana, entre mouchões, chaboucos, salgueiros, freixos, chorões e choupos, olhando ao longe a charneca e o bairro.
As “bateiras” os seus “vertedoiros” e “fateixas”, as “rabeiras”, o “saimão”, o “calão”, o “sabogalho” e a “narsa” esvanecem-se, mais a recordação daqueles que os utilizaram no dia-a-dia, numa faina dura e agreste, queremos que perdure no tempo e na memória dos homens, honrando assim esta digna gente, que contribuiu para a atual identidade da freguesia de Azinhaga e do nosso Concelho.”
José Veiga Maltez
Presidente da Câmara Municipal da Golegã
Responsável pelo Pelouro da Cultura
In Monumento de Homenagem aos Avieiros de Azinhaga
26 de Maio de 2007

Maria e Elisa de Sousa Fernandes (Lobo), regressando da venda. Se junto ao Atlântico, na Vieira de Leiria, eram os compradores que se dirigiam ás lotas improvisadas na praia, na Azinhaga, enfim, na lezíria ribatejana, era a avieira que tinha de transportar o peixe para os mercados da região, ou mesmo na venda porta a porta, garantindo que a pesca não se fizera em vão.

O vestuário dos avieiros, respresentava uma memória da vida na praia da Vieira. De pequeno chapéu preto redondo, donde pende o lenço, blusa de manga com padrão ramagens coloridas, mais ao menos engalanada de fitas rendinha e outros enfeites e o avental. Palmira Toito e Maria de Sousa Fernandes (Lobo).
Se junto ao Atlântico a mulher era essencialmente a vendedora do peixe, na Azinhaga do Ribatejo ela é também pescadora e remadora, Maria e Elisa de Sousa Fernandes (Lobo), remando e usando a vara nas cheias do rio.

A mulher tem uma importancia suprema na cultura avieira. Além de fazer tudo o que o marido executa, ainda lhe acresce a lide do barco e o cuidar dos filhos. As condições de trabalho e de vida eram-lhe mais difíceis que às restantes mulheres da região, fazendo dela uma das figuras mais impressionantes e corajosas
do nosso povo. Na foto, quando ja o Almonda, ao passar à Azinhaga, quase secava durante o verão, Palmira do Rosário Fernandes (Lobo) com seu marido Joaquim Petinga (Jaqueta).

De barrete preto, camisa axadrezada, cinta preta e calça de fazenda ou de cotim, arregaçada. Era assim o traje masculino dos avieiros, demonstrando a reminiscência dos tempos da Vieira. Luís Fernandes (Lobo), Custódio Petinga e Palmira Toito, de avental de riscas largas, como era uso. Festa do Divino Espírito Santo, Azinhaga (inicio séc. XXI).

"Eis o velho avieiro, pescador por necessidade e fado, livre acima de tudo..."
Carlos Fernandes (de luto), trisavô da actual última geração dos Jaqueta, acompanhado do seu filho Isolino Fernandes. Quando o rio não lhe dava peixe, o avieiro trabalhava no campo. O luto, era um dos aspectos mais vincados da cultura avieira. Como todas as demais gentes do mar ou do rio, era muito mais carregado do que qualquer outro grupo comunitário.
Por morte dos pais, poderia durar até três anos. A perda de um filho ou cônjuge era assinalada durante toda a vida.

A tradicional construção palafítica do avieiro, à Ponte do Cação, dentro da actual urbe que os árabes chamaram de Azzancha. Recuperada pelo seu proprietário, Custódio Petinga, com o apoio do Município da Golegã, está suspensa por colunas de tijolo e cimento, outrora troncos de madeira, para deixar passar as águas, apresentando um telhado de duas águas, com uma fachada que exibe duas portas e uma janela, cujo acesso é feito por uma escada que liga a varanda fronteira à superfície térrea.

“As escassas referências aos avieiros, visíveis na Azinhaga, merecem ser preservadas e valorizadas, sobretudo para que sejam a memória viva da origem e da luta de várias famílias, que se instalaram no Concelho da Golegã e nele subsistiram, granjeando uma melhor qualidade de vida, que lhes foi merecida pelo seu duro labor.” – José Veiga Maltez, 2007.

“Nas tantas migrações internas desembarcam emigrantes, imigrantes na estação de Vila Franca. Procuram conterrâneos na zona aberra do rio. Aqui, como são da Vieira, dizem-nos avieiros. A colónia, que é muita, ajuda-os. Consegue-lhes um barco par recomeço de vida. De entusiasmados, ainda não ganharam saudades. Hão-de chegar com o tempo e com o risco de amarguras. Sobrevivem, que os camaradas são numerosos, e o sável, com as barragens, sabem-no agora, impedido de desovar a montante do Tejo, mingua, fugindo para as águas frias do Douro. Azar que se desanima. Procuram, por isso, as Caneiras, nos arredores de Santarém, onde se fixam esperançados. O problema é o mesmo: pescadores a mais, pescarias a menos.
Afinal a Vieira era mais farta. Que o mar é sempre mar por muito pobre que seja. Sofrem as primeiras saudades.
Tentam outra zona, um tanto ao norte. E instalam-se, na margem do rio, nas “Moitas” [Azinhaga], na área verde do velho porto das Pereiras. Aqui, habitam já duas famílias.
Agora, três: os Lobos, os Narcisos e os Jaquetas. Como ainda lhes sobram uns patacos que trouxeram da terra ajudados pelos outros, entram na construção de uma casa.
De madeira, se chegarem lá, com quatro divisões encavalitadas em outras tantas palafitas, ou sejam estacas fortes de madeira para sustentarem o conjunto.
Horas à beira do Tejo espreitando as correntes, os redemoinhos, os pegões, para adivinharam as manhas cínicas do rio. Por outro lado, esquecidos no silencia leve das lezírias, tentam desvendar o fim do horizonte, no sitio onde lhes parece que a terra toca o céu. O sussurro melancólico da folhagem dos salgueiros, dos choupos e dos freixos, soprado pela brisa, lembra-lhes, porque lhes lembra, o rebentar síncrono das ondas, mais marinheiro e mais doce. Recorda-lhes o mar oceano que fica distante, para lá da Serra d´Aire que se enxerga ao longe, outros costumes. Outros hábitos. Outras vidas. (…) Não se ofendem que aqui lhe chamem cagaréus. É um nome. Como outro qualquer. Como parece que não vem de cagaço, importarem-se porquê?
Orgulham-se de lhes correr nas veias o sangue valoroso de um velho povo que á séculos chegou de barco aportando nas costas da Península para aqui viver e procurar outras gentes.”
In “Azinhaga, Livro de Horas”,
Augusto do Souto Barreiros

Vieira de Leiria

Os Avieiros devem o seu nome à região de origem – a praia da Vieira de Leiria. Aí ganhavam a vida, tendo a pesca como principal atividade. Destacavam-se as suas grandes embarcações, que podiam levar mais de 30 homens, barcos esses que se evidenciavam pela proa elevada e encurvada, de modo a melhor proteger o interior da força das ondas.
No Verão a atividade piscatória era rentável, sobretudo no que respeita à apanha da sardinha, já no inverno o panorama se transformava de modo significativo.
O mar impetuoso dificultava grandemente a manobra dos barcos, enquanto, na praia, a força do vento fustigava com areia todos os que ali se aventurassem.
Aproveitando a sua experiência piscatória, aventuraram-se nos rios, especialmente no Tejo, onde o peixe fluvial lhes poderia matar a fome e servir de rendimento.

Os avieiros executavam com as sua próprias mãos tudo o que lhes era necessário à sua faina, desde o mais pequeno objeto para a feitura das redes, até à construção dos barcos. Os barcos são “bateiras” de dimensão reduzida elaborados com madeira de pinho à exceção dos braços que são talhados em madeira de freixo, árvore que era muito frequente na “maracha” do Tejo. A cor base é o preto não tendo geralmente qualquer elemento decorativos. Ao contrário do que acontece nas embarcações marítimas, não levam pintado o seu nome. A forma da ré, é igual à da prôa, ambas em bico, simétricas, à semelhança dos usados na Vieira de Leiria. Na prôa, por vezes é adaptado um toldo para proteger quem nele vive ou pernoita. Do equipamento de bordo, faz ainda parte o “banco”, para o remador, o “traste” para encaixar o “mastro” e a “vara” para mover o barco nas zonas mais baixas do rio. Outros utensílios, como “piaçaba” para limpar, o “vertedoiro” para vazar a água, a “pedra” para bater as “ribeiras”, estacas afiadas que se enterram na areia e seguram as pontas das redes, o “saimão” que agarra a rede, o “calão”, que abre e a “fateixa”, âncora em ferro, completam o equipamento simples e parco.

Custódio Petinga, da família conhecida pelos Jaquetas, avieiro azinhaguense ainda em atividade. Aqui restaurando e reabilitando o seu barco que construiu e batizou de João Pedro, adquirido em 2007, pela Câmara Municipal, para figurar como elemento do monumento "Tributo ao Avieiro de Azinhaga", erigido pelo Município da Golegã, à Ponte do Cação.

 O certificado da "bateira" João Pedro, emitido pelo Ministério do Ambiente e Ordenamento do Território e do Desenvolvimento Regional, através da CCDR de Lisboa e Vale do Tejo, em 2007, com as características da embarcação.

O saveiro como lar

Nas primeiras décadas do século XX, os avieiros viviam em migrações pendulares entre Vieira de Leiria e as margens do Tejo. Em Novembro procuravam, entre outros tipos de peixe, o sável nas águas doces do tejo, enquanto em finais da primavera regressavam à costa marítima. Estas viagens eram inicialmente feitas em galeras puxadas por parelhas de mulas, ficando os saveiros guardados em armazéns, por exemplo no Alfange, em Santarém.
O modo de vida era particularmente duro. Sem terrenos próprios no Ribatejo, os avieiros começavam por viver nos seus barcos. Aí trabalhavam, comiam, dormiam, faziam filhos, davam à luz e até morriam. Também o facto de fazerem as necessidades à ré terá dado origem à alcunha “cagaréus”.
O saveiro era o seu lar nos meses de Inverno, e mesmo para aqueles que decidiram ficar definitivamente na zona da lezíria, o barco começou por ser a única habitação.
O característico saveiro é um barco elegante, com cerca de seis metros e meio de comprimento por metro e meio de largura. Estas embarcações eram inicialmente construídas por cada avieiro, embora alguns destes se tenham tornado mestres, executando saveiros para os colegas pescadores. Em Azinhaga do Ribatejo, Custódio Petinga é um dos últimos mestres pescadores avieiros a dominar a arte de construir saveiros, cujo esqueleto era feito de madeira de oliveira, de freixo ou de salgueiro, enquanto todos os costados eram normalmente de pinho.
Embarcação essencialmente familiar, o saveiro era dividido em três partes principais. À proa ficava o “quarto”, protegido por um toldo sempre que o clima obrigasse. Feito de pano-cru e impermeabilizado com uma mistura de linhaça e tinta, esse toldo era armado com “varelas”, ou seja, canas ou tiras de madeira. Neste quarto estendiam-se as esteiras e as mantas para as dormidas, guardadas depois no vão da proa. Durante o dia, era no quarto que se montava uma tábua, onde o remador apoiava os pés. A mesma “emparadeira” servia de divisória entre o quarto e a cozinha, ocupando esta a parte central do saveiro. Eram aqui guardados os utensílios de cozinha bem como um pequeno fogareiro a petróleo, que servia para cozinhar e aquecer as refeições. Nesta parte centrar, destacava-se ainda um banco com um furo central, que servia para colocar o mastro da vela, no caso de deslocações maiores ao longo do Tejo.
Finalmente, à ré ficava a “oficina”, isto é, o local da pesca propriamente dita, sendo aqui lançadas as redes ao rio.
Particularmente estáveis, estes barcos eram assim verdadeiras residências familiares. Durante a noite, acostados lado a lado, presos ao fundo do rio, por compridas estacas, os saveiros constituíam singulares “bairros” de avieiros em várias praias do tejo.
Nas primeiras décadas, e até sensivelmente aos anos 30 do século passado, a vida dos avieiros era, assim, de pura itinerância. Na obra Avieiros Alves Redol lembra isso mesmo, comparando aquela existência à dos ciganos:
“Vagabundos do Tejo – tendo muitos o barco como lar e as estrelas como telhas.
Debruçados no rio uma vida inteira, a colher sonhos desfeitos – sem outro rumo na carta, sem mais horizontes nos olhos. Pescadores sem tatuagens, marinheiros que não gingam a malandrar. Balouçam os ombros porque o Tejo viu nascer muitos e os embala até à morte – sempre meninos. A única tatuagem que os marca, foi a vida que lha fez – uma sombra nos rosto e um pesar no peito. Ciganos do Tejo, de porto em porto, de vela em vela, singrando neste rio tão bom e tão traiçoeiro – tão traiçoeiro e tão bom que pelas suas margens só o conhecem por Mar.”

“(…) passando o Paúl do Boquilobo, com rapidez ganha a Brôa, para depois saudar a Ermida de Nossa Senhora da Piedade, louvar a de S. João da Ventosa e as ruínas do solar dos Juzarte, para mais abaixo cortejar o que restou da presença do palácio quinhentista do infante D. Fernando, filho de D. Manuel I. Ao passar as casas entre outras, a dos Lobos, a dos Narcisos e a dos Jaquetas, cujos olhares se fixam nas suas águas espelhadas, o Almonda chega à Ponte do Cação, tirando a sede às últimas garças que dele se despedem, para momentos depois se juntar ao Tejo, como que num repouso merecido pelas agruras de que foi alvo, antes de entrar no nosso Concelho da Golegã, onde parece queres ganhar o último fôlego.” – José Veiga Maltez, 2007.

O processo de fixação no Ribatejo

A partir dos anos 30, os avieiros começaram a radicar-se no Ribatejo, pondo-se gradualmente fim à intinerância sazonal. O crescimento das famílias bem como o relativamente elevado custo das deslocações, que se começaram a fazer por comboio em vez das galeras, tornaram preferível a instalação definitiva em locais junto do Tejo. Por outro lado, a pesca no mar passou a ser um negócio progressivamente "industrializado", a cargo de grandes frotas e companhias pesqueiras, enquanto que, em contrapartida, os avieiros foram consolidando os contactos que tinham no Ribatejo, quer com a venda do seu pescado fluvial, quer com trabalhos subsidiários, nomeadamente no campo, complementando assim o seu rendimento.(...)

Se, até então, tinham necessariamente de dormir nos seus saveiros, os pescadores poderiam doravante, por fim, repousar em terra firme. Ainda assim, as condições iniciais revelavam-se extremamente duras, pois as primeiras habitações não eram mais que palhotas feitas de ramagens e de caniços, reforçadas com algumas tábuas apanhadas no próprio Tejo. Alguns avieiros, que tinham dois barcos, utilizavam um deles como habitação térrea, virando-o de modo a que a quilha servisse de telhado.

Foi deste modo, muito singelo, que foram surgindo as primeiras comunidades fixas ao longo do Tejo, que nunca passaram muito ao norte da linha Chamusca - Azinhaga pois, a montante da Golegã, as margens do Tejo adquirem uma feição serrana. As praias fluviais tornam-se aí mais pequenas, tal como as propriedades, pelo que há menos tolerância para ceder parcelas para os avieiros se fixarem. Também a agricultura é menos extensiva, exigindo menor mão-de-obra, pelo que os avieiros teriam fracas possibilidades de ali encontrar trabalho complementar ao da pesca.

Em contrapartida, na região da Chamusca e Azinhaga, além do Tejo os avieiros poderiam contar com o rio Almonda para a apanha do peixe, ou mesmo o Paul de Boquilobo, facilmente acessível aquando das inundações. 

Os processos de pesca conheceram também uma evolução. Gradualmente, foram sendo abandonadas as grandes redes "varinas", que estavam sujeitas a pesadas taxas de licença, sendo permanente a vigilância dos guarda-rios. Em alternativa, começaram-se a utilizar outras "artes", como as "nassas" (ou "narsas"). Tratavam-se de armadilhas em rede, estruturadas em elegantes formas cónicas por cinco arcos de salgueiro. Estes vão-se estreitando, pelo que o peixe, atraído por um isco colocado no fundo da armadilha, vai passando pelos arcos, tornando-se impossível voltar a sair.(...)

Na zona de Azinhaga, os pescadores apanhavam com frequência, entre outros tipos de peixe, sáveis, bogas, barbos, fataças e enguias, sendo estas últimas capturadas com os "remolhões", constituindo uma das poucas técnicas dos avieiros que não envolvia a utilização de redes.

Quando necessário, os avieiros azinhaguenses empreendiam viagens de alguns dias para outras paragens, em busca de mais pescaria. Embora os mais antigos ainda tivessem velejado até a zona de Abrantes, usualmente estes périplos tinham o sentido descendente, até Vila Franca e Salvaterra de Magos. Por vezes, para se manter o peixe fresco, este depois de apanhado era guardado em viveiros feitos de madeira e de vime, assegurando-se a sua conservação nas águas do rio até ao regresso a Azinhaga.(...)

Atualmente os avieiros utilizam sobretudos dois tipos de redes que eles próprios executam: o tremalho e a nassa (narsa). Algumas vão caindo em desuso como a varina que é uma rede de malha larga utilizada na safra do sável. Tinha por vezes uma centena de metros de comprimento e servia para apanhar peixe (>1,5Kg) e suportava quase uma tonelada de peixe. a mosqueira, ao contrário é uma rede de malha muito basta utilizada sobretudo na enguia miúda à qual os avieiros, na sua maioria são-lhe adversos.

Existia outra variedade de tremalho, era o sabogalho, já que em tudo lhe era semelhante, excepto na maior altura e extensão, para pescar espécies maiores, nomeadamente a saboga. O tremalho, é uma rede composta por três malhas, dia o nome. As alguitanas são as duas malhas exteriores que são mais largas que a interior, o pano. É uma rede de arrasto! Manuel Servo e Maria de Sousa Fernandes (Lobo).

Outro tipo de rede é a "narsa", no dizer dos avieiros, bonitos objetos de artesanato, circulares, com armação executada com arcos de salgueiro unidos por canudos de sabugo. Manuel Servo e Maria de Sousa Fernandes (Lobo).

A Gastronomia

A gastronomia é uma desses aspetos perculiares que ainda persistem. Naturalmente, os pescadores comem mais peixe do que carne, mais por necessidade do que por gosto…, e são de peixe os seus pratos mais característicos.
No dia a dia, quando o tempo escasseia para primores, o peixe prepara-se da forma que for mais rápida e menos trabalhosa: frito, assado ou caldeirado.
Mas os dias de festa quando os há, são assinalados por um trato especial: são as sabogas assadas no espeto, cuja confeção fornece o pretexto para a reunião de toda a família, em animada cavaqueira, em torno de uma grande fogueira. As sabogas são enfiadas num espeto e vão assando lentamente. Acompanham-se com batatas de azeite e vinagre e com ovas cozidas.
Um outro trato muito apreciado é a caldeirada. Peixe variado batatas, alguma água e temperos – quantos mais, melhor – (cebola, alho, louro, pimenta, piripiri, colorau ou calda de tomate), mistura-se tudo na caldeira e coze por junto. - Os Últimos Avieiros do Tejo no Concelho da Chamusca - António Matias Coelho.

O apego à pesca e o rio, diferenciava-se dos demais. Isolino (Islino) da Silva Petinga (Jaqueta).

A fidelidade à arte ditada parte tradição cultural. Custódio Petinga (Jaqueta), na atualidade ainda executa e remenda redes. Na varanda da sua palafita, reabilitada em Maio de 2007, com o apoio da Câmara Municipal da Golegã.

Um velho "lobo" do rio. A sua última fotografia, Maio 2007. Luis Fernandes (Lobo), em sua casa, na Azinhaga.

                                                                                    Irene Campino. Azinhaga, 2004
"O tremalho é uma rede com mais de 50m de extensão, ao contrário da nassa, que é a rede mais pequena, utilizada na pesca da enguia. As nassas de tamanho médio são chamadas de galrichos e as de tamanho grande de bateirões. Se o tremalho é uma rede de arrasto, a nassa trabalha de forma fixa, arma-se à noite, na barreira, rente aos salgueiros, com caracóis a servir de isco e levanta-se um ou dois dias depois pela manhã. A nassa é segura pelas rabeiras ferradas no leito do rio" - António Matias Coelho.

 A saia de roda com pregas, o lenço vistoso sobre os ombros ou na cabeça, com duas grandes pontas, meias desprovidas de pé e cobrindo a perna até ao artelho e os tamancos, faziam parte da indumentária das gentes que vieram do lados do mar. Júlia Fernandes Silva Petinga (Jaqueta), Maria Luisa e Maria José Mota da Silva (Narciso e Jaqueta), numa evocação do traje (séc. XXI), durante a Festa do Bodo em honra do Divino Espírito Santo, na qual, como na das "bateiras", na segunda-feira seguinte à Pascoa, os avieiros se associam, dando conta da sua fé, em plena comunhão com a restante comunidade, da qual ja são parte integrante.

O progresso não teve piedade para aqueles que trabalhavam e viviam do rio, já que a sua riqueza por incúria dos homens não foi salvaguardada. Maria de Sousa Fernandes (Lobo), transporta com ela no seu barco, os encantos, os desencantos, as alegrias e as tristezas de uma vida deixada no Almonda e no Tejo, que agonizam e desfilam aos seus olhos que mantêm um azul brilhante e vivo.

Os filhos, não quiseram o rio. Nem aprenderam a arte. Casaram com gente da terra, empregaram-se, aprenderam outras profissões e optaram por outros modos de vida. Elisa e Maria de Sousa Fernandes.

Hoje não passa de uma visão insólita. Alguns dos Fernandes (Lobo), no rio tejo. 

 
Nas Moitas. Era assim, antes de se mudarem para a urbe azinhaguense. À esquerda, a mãe, Palmira Fernandes (Lobo) e a filha Júlia Petinga (Jaqueta e Lobo), aquando do seu noivado com Eduardo Lourenço, também ele descendente de avieiros que se fixaram nas "Barreiras". Era normal as festas dos casamentos durarem três dias, sendo em muitos a alimentação constituída essencialmente por carne, para fugir à rotina quotidiana do peixe.

Azinhaga, segunda metade do séc. XX. Fruto da evolução dos tempos, o típico modo de vestir do avieiro entrou então em erosão, as referências visíveis que lembravam os antigos pescadores começam a escassear. A comunidade avieira começa a deixar a sua autonomia e a sua definição unindo-se pelo matrimónio com as familias locais. Na foto, Albertina Oliveira, ladeada pelos seus sogros, descendentes de avieiros Vitória Narciso e António Petinga (Jaqueta).

Avós Jaqueta Joaquim da Silva Petinga, Palmira do Rosário Fernandes com os netos José Eduardo Petinga Lourenço e Elsa Catarina Petinga Lourenço no Almonda, Azinhaga 1981.
"Os netos que já são homens, visitam os avós com frequência e gostam de assistir aos trabalhos da pesca (...). Os bisnetos, que agora são crianças pequenas ouvirão talvez mais tarde falar dos bisavós, diante de fotografas de outros tempos, como alguém que vivia de uma faina acabada, arquivada quando muito nos álbuns de recordações." - António Matias Coelho, in "Os últimos Avieiros do Tejo", CMC.

Árvores Genealógicas



"Adeus terra d´ Azinhaga; Não és vila nem cidade; És um cantinho do céu; Onde brilha mocidade.; Por isso voltei; E vim para cá; Que nunca me dei; Nas nas bandas de lá; Vira d´ Azinhaga; Teu baile me trouxe;  No canto que afaga; Na volta mais doce."

IN - Avieiros de Azinhaga (Almonda e Tejo) Subsídos para a sua História, Municipio de Golegã, 2007, Pelouro da Cultura.

11 comentários:

  1. Excelente trabalho de divulgação sobre uma das actividades que mais cacteriza o homem da bord'agua!!!

    Abraço

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  2. Diogo este trabalho está excelente, tiveste muitas horas com ele nas tuas mãos,esta boa gente merece.

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  3. Tendo eu Toito e Fernandes no meu nome consigo rever aqui passagens da minha infância.
    Embora sendo de uma terra vizinha (Vale de Figueira) Cresci com alguns destes hábitos que ainda hoje recordo com saudade.
    Nas Barreiras da Bica e Foz do Alviela passei algum tempo onde pude testemunhar a vida dura desta gente humilde e de grande coragem.
    Sendo eu descendeste Avieiro com família espalhada por todos os cantos do mundo não queria deixar passar este magnifico trabalho sem dar os meus sinceros parabéns a quem se dedica a divulgar uma historia que a cada dia que passa vai ficando mais apagada das nossas memorias.

    Um grande Bem Haja
    Manuel João Toito Fernandes

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  4. Parabéns Diogo.
    Um trabalho de 5 estrelas!

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  5. Alguns Nomes de Famílias de Pescadores:

    Ex:
    Lourenço; Toito; Fernandes; Branha; Moreira; Lameira; Petinga.

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  6. ultima foto, os meus tios Joaquim Jaqueta e Palmira, primos Zé Eduardo e Elsa, na foto logo a cima a minha avó vitória e o meu avô António Jaqueta com quem ainda andei nas pescarias e ainda a minha madrinha de baptizado e casamento Albertina esposa do meu tio Patrício.
    Há aqui muita informação mas falta muita coisa ainda, bom trabalho!!

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  7. Parabens que excelente trabalho ,como ,e bom recordar estas gentes que já não estão entre nós e das quais guardamos no nosso coração, como foi bom recuar no tempo e reviver um pouco da minha infançia vivida ao lado da ti Vitória, como era bom passear na bateira e sentir o cheiro dos salgueiros .muito obrigado pelo trabalho. Vou identificar-me para que possas saber quem fizes-te recordar o passado sou Alda Alves mais conhecida pela sobrinha do Aureliano das bicicletas.

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  8. muitos parabens pelo excelente trabalho como é bom recordar estas gentes que já não estão entre nós mas que ficaram para sempre gavadas no nosso coração como foi bom recordar a minha infância vivida ao lado da Ti Victoria como era bom passear na sua bateira e sentir o cheiro dos salgueiros muito obrigado pela viagem ao passado.Agora vou identificar-me para que possas saber quem sou.Alda Alves mais conhecida pela sobrinha do Aureliano das bicicletas.

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  9. NA MINHA TERRA,QUE E A PRAIA DO RIBATEJO,A BEIRA DOS RIOS TEJO E ZÊZERE,VIVIAM JUNTO A PONTE DA PRAIA,EM DUAS CASAS DE AVIEIROS,AS FAMILIAS BRÁS PELARIGO(A TIA ALICE E O TIO ANTONIO),CUJA ALCUNHA PARA A POPULAÇÃO DA PRAIA DO RIBATEJO, ERA OS CAGARÉUS,QUE ANDARAM COMIGO NA ESCOLA PRIMARIA(O ROGERIO,O JOSE CARLOS,A NOEMIA,A FLORINDA),E QUE ALGUNS AINDA LA VIVEM,ASSIM COMO EM CONSTÂNCIA E NOS ARREDORES.
    NA OUTRA CASA GEMINADA,NUMA PARTE VIVIA A FAMILIA DOS GOMES POLVORA,CUJA ALCUNHA ERA OS FICHAS,QUE ALGUNS ANDARAM COMIGO NA ESCOLA PRIMARIA(O HORACIO,O ANIBAL,A NATALIA,O CARLOS) E QUE OUTROS AINDA VIVEM NA PRAIA DO RIBATEJO,MADEIRAS,CONSTÂNCIA,E ARREDORES.
    NA OUTRA PARTE DA CASA AVIEIRA SOBRE PILARES DE CIMENTO E TIJOLO,VIVIA A FAMILIA ABREU SERRA,CUJA ALCUNHA ERA OS SONOS,QUE ANDARAM COMIGO NA ESCOLA PRIMARIA(A ANA MARIA,A CESALTINA,O VASCO,A ROSA MARIA),E QUE DESCONHEÇO PARA ONDE FORAM VIVER,SO CONHECENDO EU UM DELES QUE VIVE NO ENTRONCAMENTO(O JOSE QUE E COVEIRO NO CEMITERIO).
    AINDA EXISTEM NA PRAIA DO RIBATEJO MAIS ALGUMAS FAMILIAS QUE DESCONHEÇO SE SÃO AVIEIRAS,COMO OS CAVILHAS,OS MITRAS,OS PARRACHOS,OS GUEDELHAS,ETC.

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  10. Olá, bom dia

    Não sei se cheguei a dar conhecimento de um pequeno texto que fiz sobre A. Redol e os Avieiros.
    É de toda a justiça salientar a importância do vosso trabalho neste blog e como ele me foi muito útil em apresentações que fiz no Centenário do grande escritor.
    Deixo aqui o meu grande reconhecimento.
    Meu blogue:
    http://aorodardotempo.blogspot.pt/2011/12/tejo-redol-e-saramago.html

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